
Plataforma Book2Pay aposta em tecnologia de pagamentos e divisão automática de receitas para trazer mais previsibilidade a agências e fornecedores
*Por Clara Ribeiro Silva
O fluxo financeiro sempre foi um dos principais desafios do turismo B2B. Em um setor no qual o cliente paga pela viagem, mas hotéis, operadoras e agências frequentemente recebem apenas semanas ou meses depois, o impacto no capital de giro e no risco operacional se tornou um problema estrutural.

Nesse cenário, a startup brasileira Book2Pay surge com a proposta de reorganizar a dinâmica financeira da cadeia de viagens por meio de tecnologia e automação de pagamentos. A plataforma aposta em um sistema de split financeiro na origem da transação, permitindo que comissões e repasses sejam distribuídos de forma estruturada entre os participantes da venda.
Em entrevista ao DIÁRIO, Fábio Bordin, fundador da Book2Pay, explica que a proposta nasce da necessidade de superar um modelo que já não acompanha a realidade econômica atual.
“O turismo não pode continuar refém de um modelo financeiro que trava o crescimento. Nosso objetivo é reorganizar o fluxo de recursos do setor para que ele funcione de maneira mais eficiente e segura”, afirma.
A empresa projeta alcançar 10% do mercado de turismo B2B nos próximos anos, o que representaria cerca de R$ 2,29 bilhões em volume anual de transações, considerando dados do mercado Braztoa.
Historicamente, o turismo foi estruturado sobre um modelo de crédito implícito dentro da própria cadeia de distribuição. Operadoras concentravam os pagamentos dos clientes e realizavam os repasses posteriormente aos fornecedores, utilizando esse fluxo como forma de financiar suas operações.
De acordo com Bordin, esse sistema funcionou durante anos enquanto o capital era mais acessível e o crescimento do setor era constante. “O modelo sempre foi construído sobre crédito implícito e capital de giro. Enquanto o capital era mais barato e o crescimento constante, essa estrutura era tolerada”, explica.
No entanto, fatores como juros elevados, volatilidade cambial e maior pressão regulatória tornaram o sistema mais frágil. “Com o aumento dos custos financeiros, esse modelo passou a expor riscos. Em diversas situações, operadoras encerraram atividades deixando fornecedores sem receber, agências respondendo processos e clientes sem viajar”, afirma.

A proposta da Book2Pay é reorganizar esse fluxo financeiro utilizando tecnologia de pagamento integrada.
Na prática, o processo ocorre da seguinte forma:
Esse mecanismo permite que a distribuição financeira ocorra de maneira estruturada e transparente. “A liquidação ocorre por meio de split financeiro na origem da transação. O valor é dividido automaticamente entre Book2Pay, agência e fornecedores”, explica Bordin.
De acordo com a empresa, o repasse aos fornecedores ocorre em até sete dias após a confirmação da venda. Quando o embarque ocorre em prazo menor, a liquidação pode ser acelerada.
Um ponto importante do modelo é a adaptação às regras do Código de Defesa do Consumidor, que garante ao cliente o direito de arrependimento em até sete dias.
Por esse motivo, a divisão financeira não ocorre imediatamente após a venda em todos os casos. “O split automático na venda não ocorre imediatamente para respeitar o CDC, que garante o direito de arrependimento em até sete dias. Apenas embarques dentro desse período têm liquidação antecipada”, explica o fundador.
Segundo ele, o objetivo é garantir que o cliente viaje apenas quando todos os serviços já estejam quitados. “Nenhum cliente viaja sem que tudo esteja pago. O cliente não recebe uma reserva, ele recebe uma compra”, afirma.

A empresa afirma não atuar como instituição financeira e sim como uma infraestrutura tecnológica integrada ao sistema financeiro regulado.
“A Book2Pay não atua como banco ou financeira. O processamento financeiro é realizado por parceiros autorizados pelo Banco Central, garantindo conformidade regulatória e segurança transacional”, diz Bordin.
Segundo ele, o modelo não envolve captação de recursos do público nem oferta de crédito. “E [também] não há retenção indevida de recursos. A plataforma organiza o fluxo de pagamentos dentro das normas vigentes.”
A Book2Pay iniciou suas operações recentemente e trabalha com uma base inicial de aproximadamente 2 mil agências de viagens como público-alvo, sendo cerca de 800 consideradas economicamente ativas no primeiro ciclo operacional.
O crescimento da plataforma será baseado em um modelo considerado pela empresa como asset light, ou seja, sem necessidade de grandes investimentos em inventário turístico. “A empresa não compra inventário, não financia fornecedores e não carrega estoque turístico. Operamos como plataforma tecnológica e intermediadora financeira”, explica o executivo.
A meta é consolidar a plataforma no mercado brasileiro e, posteriormente, expandir o modelo para outros países da América Latina. “Nosso foco são agentes de viagens e clientes que querem estar tranquilos ao comprar uma viagem. Não é preço, é valor, tranquilidade e segurança”, afirma Bordin.
Para a empresa, a reorganização do fluxo financeiro pode representar uma mudança estrutural no turismo B2B, trazendo mais previsibilidade para toda a cadeia.
A expectativa é que tecnologia, transparência e automação passem a desempenhar um papel central na gestão financeira das viagens. “Quando todos recebem com previsibilidade, toda a cadeia se fortalece”, conclui o fundador da Book2Pay.
O post Startup promete reorganizar fluxo financeiro do turismo e mira 10% do mercado brasileiro apareceu primeiro em Diario do Turismo – O jornal diário dos melhores leitores.