
Que todos vocês sabem que eu tenho história pra contar, não é novidade, mas hoje trago uma dos tempos em que fui agente de viagens de uma das mais famosas casas de viagem de Santos…e isso, poucos sabem, que sou guia de turismo formada e trabalhei dois anos nessa área…
O título remete ao meu patrão, que atendia ao telefone (com fio) sempre com esse arremedo do inglês, parecendo um cowboy texano. Mas vamos aos fatos…
Eu tinha 21 anos, um crachá pendurado no pescoço, uma caneta que falhava mais do que funcionário em sexta-feira e uma confiança absolutamente injustificada na minha capacidade de resolver qualquer problema, inclusive aqueles que claramente não eram do meu departamento, como um senhor choroso com um revólver na mão.
Era mais um dia comum na agência de viagens, ali no centro de Santos, eu na primeira mesa, estrategicamente posicionada de frente para a porta, segundo meu patrão, porque era bonita e atraía clientes (anos 80 né!!, não existia a menor preocupação em não ser ou parecer um misógino machista) ou seja, na linha de tiro da vida. Eis que a porta escancara e entra um senhor com a dramaticidade de uma novela das oito:
— ONDE ESTÁ ELE? ONDE ESTÁ ELE?!
Eu, que até então só lidava com gente perguntando preço de pacote pra Karashi, de repente me vi promovida a protagonista de filme policial. Só que sem dublê. E sem roteiro.
O detalhe era que o homem tremia mais que gelatina em cima de ônibus. Uma mão segurava o revólver, a outra segurava o próprio desespero. E a arma? Muito bem apontada. Pra mim. Sempre sobra pro atendimento, impressionante.
Minha reação foi imediata e extremamente estratégica, me escondi embaixo da mesa com uma agilidade que nem eu sabia que tinha. Coragem é isso, saber exatamente onde se enfiar.
— Moço! — gritei, com a voz embargada e uma dignidade duvidosa, larga essa arma, pelo amor de Deus! Ele não está aqui!
Spoiler: estava sim. Escondido lá no fundo da loja, atrás de não sei quantas paredes, provavelmente abraçado num folder de Cancun e repensando todas as decisões da vida.
Enquanto isso, eu, recém-saída da adolescência, virei conselheira espiritual armada apenas com boa vontade e pavor.
— Moço, a vida não é assim! — eu dizia, como se estivesse numa palestra motivacional patrocinada pelo medo. — Não vale a pena!
E o homem chorava. Chorava e tremia. E eu ali, tremendo junto, criando um vínculo emocional digno de terapia em grupo.
Não sei em que momento eu passei de “possível vítima” para “mediadora oficial de crise”, mas aconteceu. Fui conversando, acalmando, respirando junto (ou tentando), até que, milagrosamente, ele abaixou a arma.
Aquela arma que minutos antes estava apontada pra minha testa agora estava sendo guardada, como se fosse só um guarda-chuva inconveniente.
Pronto. Eu tinha sobrevivido.
E mais, tinha salvado o velhinho e o meu patrão.
O Sr. foi embora, ainda choroso, mas com a MINHA PROMESSA de que tudo daria certo.
Levantei da mesa com a imponência de quem acabou de negociar um tratado internacional, ainda que com a perna meio bamba, e fui direto ao verdadeiro responsável por aquele espetáculo, meu patrão, o alvo original, o fugitivo de fundo de loja.
Olhei bem pra ele e descarreguei:
— Olha aqui, se tivesse acontecido alguma coisa comigo, quem ia morrer era você. Meu pai te matava!
Nunca uma frase foi tão honesta, tão justa e tão carregada de espírito de justiça familiar.
E o melhor de tudo? Isso tudo aconteceu… na frente do Palácio da Polícia.
Sim. A poucos metros de gente treinada pra resolver exatamente esse tipo de situação.
Mas quem resolveu?
Euzinha.
Com 21 anos, um medo do tamanho do mundo e uma coragem que só aparece quando não tem outra opção.
Desde esse dia, nunca mais subestimei o poder de uma agente de turismo. Porque vender pacote é fácil.
Difícil mesmo é convencer um homem armado a guardar o revólver e repensar a vida, sem nem oferecer café.
*Rita Gottardi é jornalista, escritora e ex-agente de viagens
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